domingo, 3 de março de 2013

“O Mandarim” ou dinheiro, muito dinheiro…


Hoje vou falar de um pequeno livro de Eça de Queirós, O Mandarim. Eça insiste na ideia de que se trata duma obra fantasiosa. Mas nas obras de fantasia pode-se vazar a expressão dos anseios mais fundos do autor sem os constrangimentos que o confronto com a realidade impõe. Parece-me que é o caso.
O Mandarim é, sob muitos aspectos, um parente próximo d’A Relíquia. A mesma fantasia descabelada percorre um e noutro.
Conta o protagonista, Teodoro, um bacharel funcionário do Estado contemporâneo de Eça, a viver em Lisboa, que um dia estava a ler um livro e que encontrou lá umas frases que diziam que, se tocasse uma campainha – campainha que estranhamente estava ali à mão – morreria na China um mandarim mais rico que os reis da história ou da fábula e que ele, leitor, se tornaria dono de toda a sua imensa riqueza. Teodoro hesita por momentos, mas então o Diabo, que se encontra perto e em pose de cidadão comum e bem pensante, mostra-lhe que seria erro imperdoável recusar a oportunidade.
Tocada a campainha, de imediato nada acontece, mas, passadas semanas, começa a chegar de Londres e de Paris a fortuna do mandarim morto.
Se isto não é puro delírio, então não sei como se lhe há-de chamar.
Teodoro, que é novo, começa a realizar as suas ambições: instala-se principescamente, aceita relacionar-se com os poderosos do tempo e dá-se a uma vida de luxo e deboche.
Acontecem depois várias peripécias, nomeadamente uma atribulada viagem à China. O leitor não se dá conta do passar do tempo e por isso, quando chega ao final, descobre com alguma surpresa, que Teodoro se sente já velho e faz testamento. A quem deixa os sobrantes milhões? Como eles não o fizeram feliz, deixa-os ao Diabo.
Teodoro encerra assim a sua história:
E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: ‘Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!’
Parece uma confissão de arrependido, edificante, mas não é, pois ele continua:
E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!
Nesta apóstrofe ao leitor, o protagonista evoca certo poema satânico de Beaudelaire. De facto, o livro é satânico desde as páginas iniciais até a este fim.
Talvez esta convicção de Eça, mas atribuída a Teodoro, sobre o poder do dinheiro seja mais um delírio seu e muitas pessoas recusassem tornar-se ricas com a morte alheia.
A mensagem deste livro está, menos descarada, em várias outras obras do autor. Por exemplo, no conto O Tesouro, Rui promove a morte dum irmão e mata o outro. Já pensa então numa vida de ostentação e deboche, à maneira do herói d’O Mandarim, e no modo como há-de justificar o desaparecimento dos irmãos assassinados no meio da mata: espalharia que tinham acabado na guerra contra o Turco e mandaria celebrar por eles abundantes sufrágios… Quando descobre que também fora traído, não tem nenhum rebate de consciência.
E que dizer do Raposão, protagonista d’A Relíquia? E que dizer do lugar do dinheiro n’A Cidade e as Serras? E n’Os Maias?
Eça escreveu uma vez que “a Arte é tudo. Tudo o resto é nada”. Devia estar sob um ataque de lirismo: então o dinheiro não é que é mesmo tudo – para ele?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Divertimento poético em Fernando Pessoa


Em Fernando Pessoa há vários poemas divertidos. Vou falar de alguns, mas outros ficarão de fora. Começo por um poema célebre, intitulado Liberdade.

LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever!
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal,
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa chegou a ter uma dieta de ler um livro por dia e era atormentado pelo que ele chama a dor de pensar, um constante e penoso congeminar. Este poema exalta a libertação desses tormentos, dos dele e também dos nossos.

Ai que prazer
não cumprir um dever!
Ter um livro para ler
e não o fazer!

Eu acho graça ao poema também por ele denunciar, indirectamente, a falta de fundamento da célebre afirmação de Eça de Queirós de que “a arte é tudo”. Pessoa afirma, e é verdade  que há muitas coisas grandes, das quais umas são arte, outras não: a poesia, a bondade, as danças, as crianças, flores, música, o luar e o sol e Jesus Cristo.
Não é grande só a arte nem lá para a beira.
Este poeta tinha uma relação muito própria com a infância e com as crianças (presentes no poema anterior). Ele escreveu dois Poemas para Lili, que creio que era uma sua sobrinha. O primeiro deles conta uma viagem de comboio em que tudo é desencontrado, sem razão, mas divertido.

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E outros sem ser por nada -
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E outros a dar-lhes trela -
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente,
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não -
No comboio descendente
De Palmela a Portimão

Fernando Pessoa tem uma colecção de “quadras ao gosto popular”. Há uma a que acho particular graça:
"Mau, Maria!" — tu disseste
Quando a trança te caía.
Qual "Mau, Maria", Maria!
"Má Maria" "Má Maria!"
Veja-se também esta:

Dona rosa, dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?

E fico por aqui.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Divertimento poético em Camões


Hoje vamos ter versos, mas versos que eu considero um divertimento, uma brincadeira poética. Grandes poetas como Camões ou Fernando Pessoa, ao lado de textos de pensamento profundo ou até dramático, escreveram poemas divertidos. Pretendo hoje proporcionar uma amostra desses divertimentos poéticos na obra do épico.
Começo por esta quadra, que tem um prévio esclarecimento sem o qual pouco sentido faz.
A D. António, Senhor de Cascais, que tendo-lhe prometido seis galinhas recheadas por uma copla (uns versos) que lhe fizera, lhe mandou por princípio da paga meia galinha recheada:

Cinco galinhas e meia
Deve o Senhor de Cascais;
E a meia vinha cheia
De apetite para as mais.

O divertimento aqui está sobretudo no trocadilho duma meia galinha que vinha cheia.
Também a propósito de uma promessa de galinha, feita pelo duque de Aveiro, que redundou na oferta de uma ração de carneiro, tem Camões estes versos:

Eu já vi a taberneiro
Vender vaca por carneiro.
Mas não vi por vida minha
Dar carneiro por galinha
Senão ao duque de Aveiro.

Há uma brincadeira dele particularmente engenhosa. São duas oitavas decassilábicas em louvor de certa moça. A primeira diz assim:

Sois uma dama de grão merecer,
das feias do mundo andais apartada,
de toda a má fama andais alongada,
sois cabo profundo de bem parecer.
A vossa figura, bem claro mostrais,
não é pera ver em vós fealdade;
em vosso poder não há i maldade,
não há formosura que não precedais.

É um grande elogio cortesão. Mas se formos à estrofe escrita e lhe traçarmos uma espécie de linha vertical pelo centro abaixo, as duas partes que resultam têm nexo, mas dizem o contrário do que tinha sido dito antes. Fica assim a metade inicial:

Sois uma dama
das feias do mundo,
de toda a má fama
sois cabo profundo,
a vossa figura
não é pera ver,
em vosso poder
não há formosura.

É o mundo do divertimento poético palaciano, da subtileza cortês.
N’Os Lusíadas há mesmo o que podíamos considerar uma anedota.
Mas se nos casos anteriores, os poemas eram de pouca valia poética, é bem diferente num texto como o da “menina dos olhos verdes”.
Começa assim:

Menina dos olhos verdes,
Por que me não vedes?

O divertimento assenta fundamentalmente na diversidade de significados e sentidos da palavra verdes. Pode ser simplesmente uma cor: sinal verde, folhas verdes; mas pode ser também uma forma verbal, como na frase Seria instrutivo verdes o filme. Mas verde, diz-se, é cor da esperança. O poeta explora todas estas possibilidades:


Eles verdes são,
E têm por usança
Na cor esperança
E nas obras não.
Vossa condição
Não é de olhos verdes,
Porque me não vedes.

Isenção a molhos
Que eles dizem terdes,
Não são de olhos verdes,
Nem de verdes olhos.
Sirvo de geolhos,
E vós não me credes,
Porque me não vedes.

Havia de ser,
Por que possa vê-los,
Que uns olhos tão belos
Não se hão de esconder.
Mas fazeis-me crer
Que já não são verdes,
Porque me não vedes.

Verdes não o são
No que alcanço deles;
Verdes são aqueles
Que esperança dão.
Se na condição
Está serem verdes,
Por que me não vedes?

Convenhamos que é um bocado enredado, mas é poético e devia fazer sucesso no meio palaciano. Há muito mais disto na obra de Camões. Mais divertimento.
Isto é do tempo do estilo manuelino, que também é enredado e gracioso.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Maria da Fonte na Póvoa de Varzim

Eu não conheço nada que tenha sido publicado sobre a revolta da Maria da Fonte aqui no concelho da Póvoa de Varzim, mas é sobre o eco que essa revolta por cá teve que vou falar.
Vulgarmente a Maria da Fonte é vista como um facto menor da nossa história, contudo ela deve ter revelado um desencontro profundo entre o sentir das camadas populares e o poder de inspiração maçónica que dominava o Estado desde 1834.
Em concreto, diz-se que a revolta começou na Póvoa de Lanhoso, em Março de 1846, quando um grupo de mulheres desafiou a proibição de sepultar os cadáveres no interior da igreja. A mentora do acto de insubmissão teria sido Maria da Fonte, e daí o nome dado à revolta, que alastrou rapidamente pelo país.
O que se passou na pequena vila da Póvoa, só o conheço pelas actas camarárias. A primeira delas data de 29 de Maio de 1846, mas reporta-se a factos bastante anteriores. Mas ela deve seleccionar muito bem o que regista; podemos por isso imaginar várias coisas que lá não constam.
No dia 23 de Abril entraram na vila “os povos de todas as freguesias que compõem o mesmo concelho, as quais foram interrompidas no exercício das suas funções pela chegada de alguma força militar no dia vinte e quatro do sobredito mês de Abril, vinda da cidade do Porto”.
Para que “os povos de todas as freguesias que compõem o mesmo concelho” se reunissem, houve necessariamente acaloradas movimentações, que a acta não menciona. O desacato deve ter sido grande: a reunião começou no dia 23 e só terminou em 24, pela ameaça resultante da aproximação duma força militar. Embora a acta o não diga explicitamente, a câmara e demais autoridades foram demitidas, pois foram eleitas outras para ocuparem o lugar, e não é impossível que tenha havido algumas violências (1).
Cerca de um mês depois, em 19 de Maio, tendo a força militar retirado, os povos do concelho reuniram-se de novo e aprovaram as autoridades já eleitas. Esta insistência na insubordinação implica determinação e liderança: alguém aceitava correr sérios riscos.
No dia 29 de Maio, ratificou-se a nomeação das Autoridades Populares. A acta é assinada por 343 homens do concelho, homens que persistiam em defender os seus pontos de vista: homens mobilizados. Na altura, concelho compunha-se destas freguesias: Nossa Senhora da Conceição (Póvoa de Varzim), Argivai, Navais, Estela, Terroso, Laundos, Rates, Rio Mau, Balasar, Parada, Outeiro Maior e Santagões. Ficavam de fora Amorim e Beiriz, então pertencentes a Vila do Conde.
Os factos ocorridos na Póvoa tiveram naturalmente em conta a evolução da situação política no país.
Há um homem que deve ter tido um papel relevante nesta movimentação poveira: chamava-se António José dos Santos e casara para Balasar, em Vila Nova. Terá sido simplesmente um agitador.
Ele teve a maioria dos votos quando se procedeu, a quente, à eleição das novas autoridades, cabendo-lhe consequentemente o cargo de maior responsabilidade, o de administrador do concelho. Mas não chegou a tomar posse: os influentes poveiros hão-de tê-lo convencido a desistir, pois ele não teria adequada preparação para o cargo e morava longe da sede do concelho. Pelos vistos, arranjaram-lhe um emprego remunerado, o de Chefe da Delegação da Alfândega.
António José dos Santos tinha então um pouco mais que 50 anos e não era de modo nenhum analfabeto. Até escreveria razoavelmente, se isso se pode deduzir duma assinatura que lhe conhecemos.
À Maria da Fonte sucedeu-se outra revolta, a Patuleia. A Rainha D. Maria II teve de ser drástica a lidar com a situação e no ano seguinte tudo regressava à normalidade. Nessa altura, a câmara da Póvoa foi dissolvida superiormente. Caso curioso, António José dos Santos foi proposto para vereador na nova edilidade, mas não aceitou. Aparentemente, há algo contraditório da parte do poder: para quê chamar um homem que se tinha batido por uma autoridade de raiz popular? Mas ele recusou, pois nunca aparece nas actas seguintes. Como quer que fosse, era-lhe reconhecida uma popularidade especial.
António José dos Santos, que era natural de Gueral e devia ser abastado, continuou a ser um homem considerado em Balasar e entre as edilidades poveiras. Foi avô do António Joaquim Leitão que um dia comprou a Quinta de D. Benta.
Como já disse, não conheço nada impresso sobre a Revolta da Maria da Fonte na Póvoa. Para Vila do Conde, há pelo menos algumas páginas das Duas Fiandeiras, de Gomes de Amorim.
_______________

(1) Também em Vila do Conde, no mesmo dia 23 de Abril, segundo a acta camarária de 28, “os povos amotinados tinham evadido (sic) esta Vila, queimando vários papéis da secretaria da administração  deste concelho e suposto confundiram alguns da secretaria desta Câmara, contudo felizmente não faltaram nenhuns, tendo aqueles povos retirado em consequência da entrada do Batalhão Nº 16, comandado pelo coronel Taborda”. Deve ter sido este o batalhão que foi à Povoa. A Câmara foi dissolvida em Junho e substituída por uma comissão nomeada pelo Governo Civil.
Da consulta que fizemos a documentação contemporânea, não nos pareceu que se tivesse verificado a tomada do castelo por populares, romanceada por Gomes de Amorim n’As Duas Fiandeiras.
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O campanilo da Estela


Há tempos falei das torres do nosso arciprestado e hoje volto ao tema. De facto, tomei conhecimento de alguma informação que considero que merece ser acrescentada ao que tinha dito.
Em relação à igreja velha de Rio Mau, vi uma fotografia de há 100 anos, de quando a restauraram, que mostra como que era o pobre torreão sineiro dessa grande freguesia: coisa pobre e inestética. Ainda por cima colocada na frente da fachada principal A fotografia vem em Vila do Conde e o seu Alfoz, do Mons. J. A. Ferreira. A actual torre, moderna mas de imitação antiga, data dessa altura.
Como é sabido, há um quadro do século XVII que mostra Rates e a paisagem envolvente. O que não mostra é nenhuma torre na igreja. Mas houve uma, mais tarde, um pouco atarracada e que lhe ficava a poente, junto à cabeceira. Foi justamente demolida.
Mas não foram estas duas breves observações que me levaram a voltar a falar de torres, foi o livrinho de Gomes dos Santos Da Estela com Saudades. Em concreto, foi o que o autor lá escreveu sobre o demolido “campanilo” da terra.
Começo por esta palavra. Ela quer chamar a atenção para o facto de aquela pequena torre ser, como muitas de Itália, destacada da igreja, autónoma. Ao modo do torreão de Laundos.
O campanário da Estela serve de ilustração da capa do mencionado livro; naturalmente o autor não o esquece na sua exposição e descreve-o com pormenor. Vou agora tomar a liberdade de citar o que lá se lê sobre “o campanilo da Estela”. 
A Estela tinha um campanilo. Tinha; já não tem. Não era um campanário com a riqueza plástica e a exuberância dos campanilos de Giotto que por via de regra são ex-libris das cidades italianas onde foram construídos.Todavia era um torreão com sobriedade e imponência que dava boa conta dos vizinhos da Estela. Torreão quadrado, com cunhais de granito talhado a pico fino, encimados por pináculos de idêntica factura. Com frontões triangulares, encimando os triângulos equiláteros uma cruz também talhada a granito; a cruz sem figura e muito sóbria que também simbolizava de forma eloquente a alma dum povo e a época da construção. Nas faces norte, nascente e sul, com janelas em ogiva, lá estavam os três sinos, o grande, o do meio e o pequeno. A poente subiam as escadas por onde os rapazes iam tocar o sino, fazer “bamboar” o sino grande, tarefa que exigia muita força e muita perícia; e tinha os seus riscos.Os sinos são a marca duma terra; aquele campanilo era o verdadeiro ex-libris da Estela. Como se pode concluir por esta lenda que então se contava. Em Laundos os sinos avisavam “tem lêndea”… “tem lêndea”; os de Nabais: “matai-a”… “matai-a”; e os da Estela concluem: “c’um pau”, “c’um pau”. Como se vê, à semelhança de outras terras e da Candelária do Brasil, os sinos da Estela têm a sua lenda.
Como as da terra natal de Torga que tanto o impressionaram. Aqui, a versão onomatopaica da lenda conta assim: “tem lêndeas”… “tem lêndeas”… “se tem tira-as”… “se tem tira-as”.Os sinos repicam nos baptizados e festas Tocam de forma diferente consoante o acto litúrgico para que convidam.
Foi uma pena que a Estela tivesse demolido este seu monumento.
A vida rural era antigamente muito repetitiva e as pessoas viajavam pouco ou nada, a ponto de haver, diz-se, quem nascesse, vivesse e morresse sem sair alguma vez da sua terra. Mas a sua imaginação de analfabetos era como a nossa, embora tivesse pouco de que se alimentar. Estas lengalengas dos sinos fazem-me lembrar algumas adaptações vernáculas populares do latim litúrgico. Na ladainha chamava-se a Nossa Senhora Janua caeli (Porta do Céu), e a adaptação vernácula traduzia isto para “já não há céu”; Virgo clemens (Virgem clemente) dava “vira o creme”. Etc. E vem isto a propósito do desaparecido campanilo da Estela.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A IGREJA ROMÂNICA DE RIO MAU


Depois de na vez passada ter falado da Igreja Românica de Rates, mal pareceria não dizer hoje alguma coisa sobre a Igreja Românica de Rio Mau. E é o que vou fazer.
A Igreja antiga de Rio Mau também foi igreja de mosteiro, de um pequeno mosteiro. Se o de Rates era dos beneditinos de Cluny ou cluniacenses, o de Rio Mau era dos cónegos regrantes de S. Agostinho. Se o primeiro sofria inevitável influência europeia, o segundo enquadrar-se-ia numa dinâmica mais nacional, mas, ainda assim, fora do monaquismo frutuosiano.
Convém também saber desde já que o Mosteiro de Rio Mau era da mesma ordem do de S. Simão da Junqueira. Havia assim dois mosteiros próximos de cónegos regrantes de S. Agostinho, um ao norte do Este, outro ao sul. O de S. Simão era mais antigo algumas décadas. Até dá para pensar se o de Rio Mau não resultaria duma espécie de dissidência de S. Simão da Junqueira.
A igreja velha de Rio Mau é mais pequena que a de Rates: nem admira, em Rates houve doações de príncipes. Rates tem três naves, Rio Mau apenas uma.
Quem olha de relance para os tímpanos dos portais principais de Rates e Rio Mau até lhe vê semelhanças, mas as diferenças são maiores que as semelhanças.
O tímpano da porta principal de Rio Mau tem ao centro um bispo. À sua esquerda e à sua direita, estão dois diáconos com livros abertos frente ao peito. O bispo é S. Agostinho e os diáconos representarão, mesmo que indirectamente, os cónegos regrantes. Como S. Agostinho é um dos principais doutores da Igreja, os livros dos diáconos devem aludir aos escritos do santo.
À esquerda de quem olha, no extremo do tímpano, está uma águia sob uma representação do Sol, e no outro extremo, um atlante que carrega a Lua; alguém os aproximava dos símbolos Alfa e Ómega com que Cristo é identificado no Apocalipse.
Como quer que seja, há aqui também, como em Rates, uma mensagem de regresso às fontes seguras do cristianismo.
Como em Rates, também em Rio Mau há duas portas travessas. No tímpano da do norte, pode-se ver a luta de dois seres fantásticos, creio que um grifo e um dragão. 
A capela-mor de Rio Mau é artisticamente notável. Interessa-me aqui apenas um capitel, o primeiro do lado sul, para quem olha do corpo da igreja. Há lá esculpido um segrel, um cantor medieval daqueles que andavam por feiras, palácios e castelos a ganhar a sua vida, cantando mas também contando. Atendendo ao que se vê nas outras faces do mesmo capitel, os entendidos aventam três hipóteses para o papel que ele ali desempenha. Lembro duas: ele evocaria o episódio conhecido como o desastre de Badajoz, em que D. Afonso Henriques foi feito prisioneiro do Rei de Castela, partiu uma perna e teve de pagar grande quantidade de ouro para recuperar a liberdade. A alternativa a esta hipótese, remete para um possível acontecimento local, não documentado, relacionável com os viquingues.
O restauro da Igreja velha de Rio Mau foi dirigido, em 1909, pelo pároco de Vila do Conde e grande historiador, Mons. José Augusto Ferreira. Em Vila do Conde e o seu Alfoz, ele não regista o facto, mas traz pelo menos algumas imagens da igreja, antes do restauro. Uma sobretudo mostra a existência de dois torreões sineiros frente à fachada principal e colados a ela. Era uma nódoa que urgia remover.
Foi certamente na sequência desse restauro que a freguesia levantou aquela original torre por cima da entrada do cemitério.
Os tímpanos e capitéis de Rio Mau levam a perguntar: não haveria também no Mosteiro da Junqueira tímpanos e capitéis semelhantes? Ele era mais rico, ele sobreviveu muito mais tempo…
O mais provável é que houvesse e que as sucessivas reconstruções os tivessem removido. Se calhar estão aproveitados em paredes do edifício da igreja ou da parte residencial.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sobre a Igreja Românica de S. Pedro de Rates


Há alguns meses fiz umas leituras sobre a Igreja de S. Pedro de Rates que me impressionaram. Na base delas vou hoje falar do tímpano do portal principal desta igreja.
Às vezes parece que há a ideia de que na Idade Média as pessoas eram todas cristãos praticantes e exemplares. Mas o nosso rei D. Afonso Henriques teve vários filhos fora do casamento, D. Sancho I a mesma coisa, D. Afonso III foi muito pior, D. Dinis foi também muito fraco marido. Se abrirmos o chamado Cancioneiro da Biblioteca Nacional, que é um livro muito grande e com poesia dos séculos XII, XIII e XIV, por cada cantiga decente que lá se encontra deve haver meia dúzia delas obscenas, ou mais. Nas Inquirições há comuns informações de roubos e às vezes de assassínios.
De facto, chegou-nos muita notícia de maldades que então se cometiam.
Ora o tímpano da Igreja de S. Pedro de Rates, que datará de cerca de 1220, parece um programa de ataque a este estado de coisas.
Ao centro, vê-se Cristo em Majestade ou o Pantocrátor, Cristo vencedor, ladeado pelos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, o primeiro papa e o primeiro grande propagador do Cristianismo. Sob os pés de Cristo e dos apóstolos jazem dois homens, que os entendidos identificam como Ario e Judas. Ario foi um heresiarca e a sua heresia vigorou algum tempo na Península, sob os suevos. Judas representa o judaísmo, que pode ter tido relevância no período visigótico.
Ora, segundo os mesmos especialistas da história da arte, a imagem de Cristo em majestade apresentá-lo-á de acordo com estas palavras de um salmo: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita enquanto eu ponho os teus inimigos sob o escabelo dos teus pés”. Deus Pai promete a Cristo colocar-lhe os inimigos sob os pés, isto é, derrotá-los.
A mensagem é clara, a vitória de Cristo no passado sobre Ario e Judas garante a sua vitória no presente e no futuro.
Em capitéis do mesmo portal, representa-se o Tetramorfo, isto é, os símbolos dos Evangelistas, o que indica que essa vitória passa pelo Evangelho, pela sua divulgação.
Não está aqui, ao menos directamente, uma mensagem guerreira, de luta pelas armas contra os mouros, embora possa incluí-la, mas é antes uma mensagem para dentro das comunidades cristãs, para irem às fontes genuínas.
No tímpano da chamada porta sul, representa-se o Agnus Dei, o “Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”, do Evangelho de S. João, e o mesmo Cordeiro do Apocalipse, em cujo sangue os redimidos lavaram as suas vestes. E também aí terá estado representado o Tetramorfo.
Este segundo tímpano continua a mensagem do da porta principal, a do regresso ao Evangelho.
Sabemos que, apesar desta espécie de manifesto de luta, ali em Rates se desenvolveu a lenda de S. Pedro de Rates, a que andou associada a de S. Félix. E a lenda de S. Pedro de Rates teve um apêndice em Balasar. Em Bagunte, parece ser sobre uma lenda se criou a ermida da Senhora das Neves, em S. Clara de Vila do Conde houve a Lenda da Berengária e outras.
É mais difícil estar com os Evangelhos, de um tempo e uma cultura distantes, do que com uma piedosa lenda do nosso lugar.
Esta mensagem, em imagens tão toscas, trazida pelos monges franceses de Cluny, é surpreendentemente actual, convidando os cristãos a seguir o caminho da verdade evangélica, na certeza de que a vitória os espera.
Muito curioso é tudo isto.
Ouçam-se estas palavras de um crítico de arte sobre o tímpano que serviu de ponto de partida para esta reflexão:
Talvez o mais interessante dos tímpanos portugueses seja o de S. Pedro de Rates, mosteiro de refundação beneditina do séc. XII que teve uma importância primordial na difusão artística da Ordem no Norte de Portugal, bem como um papel decisivo na “normalização” teológica e litúrgica empreendida pelos Beneditinos cluniacenses no novo reino peninsular, facto que ajuda a explicar o tema do tímpano do seu portal principal.
Jorge Rodrigues, História da Arte Portuguesa, direcção de Paulo Pereira, vol. I, páginas 268-269.
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