Da vez passada falei do Auto da Barca do Inferno. Mas não expliquei donde originavam aquelas barcas ou mesmo a ideia de fazer o julgamento ali no cais, pois nada disto está no Evangelho. Vou tentar esclarecer isso hoje.
Esta peça vicentina tem um débito muito directo relativamente a uma obra antiga, intitulada Diálogos dos Mortos. Este livro foi escrito em grego, no segundo século da nossa era; o seu autor chamava-se Luciano, e era pagão.
Luciano imagina, de acordo com a mitologia grega, os mortos a chegarem a um rio, o rio Letes ou rio do esquecimento, que têm de atravessar na barca de Caronte para a morada dos mortos, que é o Hades ou os Infernos. No momento da travessia, está também presente Hermes, outro deus.
Entre os mortos que se apresentam a pedir passagem e os dois barqueiros, desenvolvem-se então diálogos com temas variados. Já se está pois a ver: o Auto da Barca do Inferno está muito próximo da obra de Luciano. De um modo mais em geral, porque se imagina também uma passagem fluvial da vida terrena para o Inferno ou para o Céu, e, mais em particular, está próxima dum desses diálogos, o X. Efectivamente, neste diálogo X ocorrem conversas que têm semelhanças muito chegadas com os que encontramos na obra de Gil Vicente.
Para quem achar isto estranho, lembro que há igrejas onde, no altar da Almas, se representam os mortos numa barca. Creio que tal representação existe na Matriz poveira, mas existe de certeza na Matriz vila-condense. Onde ela se vê também é no Juízo Final, de Miguel Ângelo.
É um modo visível, dito alegórico, de representar uma realidade invisível (onde evidentemente não há barca nenhuma).
Ouçamos uma amostra do diálogo X de Luciano:
CARONTE – Vou-vos explicar: é preciso que embarqueis nus, deixando todo o supérfluo na margem porque, assim como estais, dificilmente o barco poderá receber-vos.
E tu, ó Hermes, trata, a partir de agora, de que nenhum deles seja recebido que não venha em pêlo, depois de deitar fora, como eu já disse, a bagagem. A pé firme, junto à escada, passa-os em revista; recebe-os, forçando-os a embarcar nus.
HERMES – Dizes bem e assim faremos. Quem é este que está em primeiro lugar?
MENIPO – Eu cá sou Menipo. Mas repara, ó Hermes, a saca e o cajado já foram lançados ao pântano. E o manto coçado nem sequer o trouxe, bem de propósito.
Neste diálogo os passageiros são todos homens e, ao contrário de Menipo, outros vêm ainda muito orgulhosos do que faziam em terra. Por exemplo, um filósofo aparece com a barba muito grande, que era um distintivo do grupo. Mas nem a barba ali escapa: tem de ser cortada. E com os restantes acontece coisa semelhante.
Na obra de Gil Vicente os mortos também trazem qualquer objecto que os individualiza pela actividade, cargo ou profissão que tinham exercido. Um nobre traz uma cadeira, que indica a sua superioridade face às outras classes sociais; um sapateiro traz as formas dos sapatos, um juiz traz autos…
Mas há diferenças face à figuração da mitologia que é preciso notar: em vez duma barca, em Gil Vicente, há duas, há também dois destinos, há um Anjo e um Diabo…
Mas vou ainda falar doutra obra que terá influenciado Gil Vicente. É uma pintura que data, muito provavelmente, de 1515, de dois antes de ser representado o Auto da Barca do Inferno e intitulada Inferno. Nesta pintura não há barcas nem Anjo, mas há muitos condenados e diabos.
Esta pintura é muito curiosa. Aqui há bastantes anos, por altura do décimo aniversário da morte de Flávio Gonçalves, se não erro, houve um crítico de arte, Dagoberto Markl, que escreveu sobre ela no boletim municipal. Prometeu até publicar sobre ela um livro inteiro. Mas creio que isso não chegou a acontecer.
Gil Vicente, como é sabido, escreveu também o Auto da Barca do Purgatório e o Auto da Barca da Glória.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Sobre o "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente
Há uma obra de Gil Vicente que tem por título Auto da Barca do Inferno. É uma peça de teatro de tamanho relativamente reduzido e de que quase toda a gente gosta. Naturalmente uns gostarão por uma razão, outros por outra. Hoje vou falar das razões que me levam a valorizá-la.
Este auto – auto, neste caso, quer dizer mais ou menos peça de teatro – é o auto do julgamento após a morte. Em cena estão duas barcas, uma do Diabo outra do Anjo. Quando as personagens chegam àquele cais, todas ou quase todas ambicionam ir para a barca do Anjo, e quase todas acabam na do Diabo. Isto à partida parece que não deveria provocar muito entusiasmo pela obra.
O facto é que no julgamento se faz uma apreciação muito crítica da vida terrena, com bastante ironia pelo meio. Então, os leitores e espectadores, ao verem ser enviada para o Inferno toda aquela maldade, consideram que se faz justiça; e como também se faz ironia, acham graça.
Vão para o Inferno um Fidalgo presunçoso e tirano, um Sapateiro explorador, um Onzeneiro que emprestava dinheiro a um juro exorbitante, um Frade mundano, etc., etc.
Vejamos agora o que a mim me seduz.
Quando o auto começa, o Diabo diz que está uma maré maravilhosa: “À barca, à barca / que temos gentil maré!”, grita. Quer dizer, o seu barco tem condições para levar uma grande carga. Até corre vento para o empurrar.
E a verdade é que a maré lhe vai correr de feição e a sua barca vai encher. E é enquanto ela enche que assistimos a uma crítica impiedosa à sociedade dos vivos.
Só que, em dado momento, muito perto do fim do auto, o Diabo descobre que a maré passou: a barca, carregada, pousou no chão. O Diabo ainda tenta um expediente para a fazer andar: “Alto, todos apear / Que está em seco o batel!”
Mas desta vez pode-se dizer mesmo que aquele mal não vem só; decididamente a sua boa maré passou.
Logo a seguir, apresentam-se no cais quatro Cavaleiros. Ao contrário de todas as outras personagens anteriores, que recorriam a desculpas nada convincentes ou expedientes sem préstimo para evitar a barca do Diabo, estes Cavaleiros olham a situação dum modo inteiramente diferente. Consideram-se mártires da Fé e dirigem, em canto, um convite vibrante aos espectadores para que se não dêem a uma vida desregrada, mas pelo contrário vivam a sua religião com o maior e mais decidido empenho.
O Diabo, face a esta situação nova, sente-se desnorteado: os Cavaleiros não só não lhe ligam como lhe respondem duramente; o Anjo, esse, dá o melhor acolhimento a estes passageiros.
O auto termina aqui, quando o Diabo tem a sua barca encalhada, incapaz de seguir viagem, e quando os espectadores ouvem um vibrante de quatro nobres apelo a mudar de vida. É como que um novo começo.
Mas isto, para mim, ainda não é tudo. A questão, em meu entender, é esta: Gil Vicente foi capaz de fazer uma análise audaz, realista, impiedosa à sociedade sua contemporânea, enviando-a sem apelo para a barca do Diabo; mas, colocando-se numa perspectiva de grande autenticidade evangélica, acabou mostrando o caminho alternativo a seguir. E isto através duma cena cheia de cor, canto e emoção.
O realismo da análise, que aproxima muitas vezes este auto duma farsa, está lá, mas, globalmente, a obra é uma moralidade excelente.
É curioso que o Auto da Barca do Inferno date de 1517, o ano em que Lutero começou o seu protesto. Gil Vicente também se escandalizou com as pessoas do seu tempo, também foi duro, mas soube manter-se dentro da verdade da Igreja.
Isto, algo mais, é o que eu vejo neste auto e o que acho que o faz uma obra de rara qualidade.
Há uma outra obra de Gil Vicente, o Auto da Alma, também uma moralidade, que é considerada do melhor que se produziu no género na Europa do tempo. Mas eu tenho-me encantado mais com o Auto da Barca do Inferno.
Hoje falei deste auto; na próxima vez espero falar a propósito dele.
Este auto – auto, neste caso, quer dizer mais ou menos peça de teatro – é o auto do julgamento após a morte. Em cena estão duas barcas, uma do Diabo outra do Anjo. Quando as personagens chegam àquele cais, todas ou quase todas ambicionam ir para a barca do Anjo, e quase todas acabam na do Diabo. Isto à partida parece que não deveria provocar muito entusiasmo pela obra.
O facto é que no julgamento se faz uma apreciação muito crítica da vida terrena, com bastante ironia pelo meio. Então, os leitores e espectadores, ao verem ser enviada para o Inferno toda aquela maldade, consideram que se faz justiça; e como também se faz ironia, acham graça.
Vão para o Inferno um Fidalgo presunçoso e tirano, um Sapateiro explorador, um Onzeneiro que emprestava dinheiro a um juro exorbitante, um Frade mundano, etc., etc.
Vejamos agora o que a mim me seduz.
Quando o auto começa, o Diabo diz que está uma maré maravilhosa: “À barca, à barca / que temos gentil maré!”, grita. Quer dizer, o seu barco tem condições para levar uma grande carga. Até corre vento para o empurrar.
E a verdade é que a maré lhe vai correr de feição e a sua barca vai encher. E é enquanto ela enche que assistimos a uma crítica impiedosa à sociedade dos vivos.
Só que, em dado momento, muito perto do fim do auto, o Diabo descobre que a maré passou: a barca, carregada, pousou no chão. O Diabo ainda tenta um expediente para a fazer andar: “Alto, todos apear / Que está em seco o batel!”
Mas desta vez pode-se dizer mesmo que aquele mal não vem só; decididamente a sua boa maré passou.
Logo a seguir, apresentam-se no cais quatro Cavaleiros. Ao contrário de todas as outras personagens anteriores, que recorriam a desculpas nada convincentes ou expedientes sem préstimo para evitar a barca do Diabo, estes Cavaleiros olham a situação dum modo inteiramente diferente. Consideram-se mártires da Fé e dirigem, em canto, um convite vibrante aos espectadores para que se não dêem a uma vida desregrada, mas pelo contrário vivam a sua religião com o maior e mais decidido empenho.
O Diabo, face a esta situação nova, sente-se desnorteado: os Cavaleiros não só não lhe ligam como lhe respondem duramente; o Anjo, esse, dá o melhor acolhimento a estes passageiros.
O auto termina aqui, quando o Diabo tem a sua barca encalhada, incapaz de seguir viagem, e quando os espectadores ouvem um vibrante de quatro nobres apelo a mudar de vida. É como que um novo começo.
Mas isto, para mim, ainda não é tudo. A questão, em meu entender, é esta: Gil Vicente foi capaz de fazer uma análise audaz, realista, impiedosa à sociedade sua contemporânea, enviando-a sem apelo para a barca do Diabo; mas, colocando-se numa perspectiva de grande autenticidade evangélica, acabou mostrando o caminho alternativo a seguir. E isto através duma cena cheia de cor, canto e emoção.
O realismo da análise, que aproxima muitas vezes este auto duma farsa, está lá, mas, globalmente, a obra é uma moralidade excelente.
É curioso que o Auto da Barca do Inferno date de 1517, o ano em que Lutero começou o seu protesto. Gil Vicente também se escandalizou com as pessoas do seu tempo, também foi duro, mas soube manter-se dentro da verdade da Igreja.
Isto, algo mais, é o que eu vejo neste auto e o que acho que o faz uma obra de rara qualidade.
Há uma outra obra de Gil Vicente, o Auto da Alma, também uma moralidade, que é considerada do melhor que se produziu no género na Europa do tempo. Mas eu tenho-me encantado mais com o Auto da Barca do Inferno.
Hoje falei deste auto; na próxima vez espero falar a propósito dele.
Darwin e o poema bíblico da Criação
Em Fevereiro completaram-se 200 anos sobre o nascimento de Darwin, o homem a quem se atribui a teoria da Evolução das Espécies. Darwin, que a princípio quis ser clérigo, no final da vida definiu-se como agnóstico, mas não como ateu.
Os primeiros capítulos da Bíblia descrevem poeticamente a criação, afirmando que ela se processou ao longo de seis dias. Mas a teoria evolucionista afirma que as espécies animais surgiram ao longo de um processo de milhões de anos.
O próprio Darwin declarou que se pode ser ardente teísta, isto é, crente, e evolucionista, confirmando a afirmação com casos de seus contemporâneos célebres. Desde que se aceite Deus como criador e providência, cabe à ciência estudar depois o processo evolutivo na sua área.
Falemos por isso do Poema da Criação, que ocupa as páginas iniciais da Bíblia. Ele foi escrito próximo do ano 550 a.C., na Babilónia, a capital mais avançada do tempo, quase 100 anos antes de Platão nascer, quando os judeus se encontravam aí em exílio. É um texto cosmogónico, que conta imaginosamente a origem do universo e dos muitos seres que ele contém.
O Poema da Criação apresenta-se como a réplica hebraica ao mito babilónico da criação e pode ter desempenhado na liturgia de Israel um papel paralelo ao que desempenhava aquele mito no culto de Marduk, nas festas do Ano Novo.
Vejamos as frases inicias do poema:
“No princípio, Deus criou os Céus e a Terra. A Terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas.
Deus disse:
- Faça-se a luz!
E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas noite.
Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.
Deus disse:
- Haja um firmamento entre as águas para as manter separadas umas das outras.
Deus fez o firmamento e separou as águas que estavam sob o firmamento. E assim aconteceu. Deus chamou céu ao firmamento.
Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o segundo dia”.
O poema organiza-se numa espécie de «estrofes» rematadas por uma espécie de «refrão»:
«Assim surgiu a tarde e em seguida a manhã: foi o primeiro dia», etc.
Além do «refrão», contêm-se nas «estrofes» outros elementos de repetição:
«Deus disse», «E assim aconteceu», «E Deus viu que isto era muito bom». A repetição é um elemento comum em qualquer poema.
O texto é redondo, já que se pode dizer que começa e acaba pela mesma expressão «os Céus e a terra». Conclui com um fechamento muito claro: “Esta é a origem e a história da criação dos Céus e da Terra”.
Estruturalmente, é um texto independente do que se lhe segue.
Houve um autor, de nome Gilberto António de Andrade, que considerou que o poema bíblico da Criação poderia ser «um dos mais belos poemas da humanidade».
Texto litúrgico que é, possui natural pendor «dramático»; quanto posso imaginar, visa a «representação», pede actores. Está muito longe do vulgar texto narrativo.
Tematicamente, trata-se, poder-se-á dizer, de um texto de combate: há um só Deus e não muitos, como considerava a perspectiva babilónica; Deus cria sem recorrer a nada anterior, a partir do nada, pela sua palavra e por gosto; o homem é inteligente, livre e criativo, «à semelhança» de Deus; Deus oferece-lhe o Universo como palco da sua acção; não há lugar para as divinizações reais, faraónicas ou imperiais; a dignidade do homem é universal, bem como a da mulher; o sentido da vida exprime-se de um modo mais completo no descanso sabático, um dia santificado, de adoração e gratidão para com o Deus que ama o homem e para quem tão generoso mostra.
É um texto profundamente revolucionário, pois impõe mudanças radicais no modo de olhar o homem e o mundo face ao que se praticava na Babilónia ou no Egipto, e profundamente optimista: “E Deus viu que tudo era muito bom”.
A Beata Alexandrina e a Segunda Guerra Mundial
Dentro de dias celebra-se o aniversário do nascimento da Beata Alexandrina; por isso eu hoje vou falar um pouco dela e a propósito dela. Em concreto, vou falar da Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, que ela pediu e que o Papa Pio XII realizou em 31 de Outubro de 1942.
Em finais do séc. XIX, tinha o mundo sido consagrado ao Coração de Jesus – e a basílica poveira tem certamente alguma coisa a ver com isso; agora pedia o mesmo Jesus que ele fosse consagrado ao Coração Imaculado da sua Mãe.
Convém lembrar que, na teologia católica, à Mãe de Deus é atribuído o papel mais importante: tendo dado à humanidade o Filho de Deus, Ela encontra-se no centro do plano salvador por Ele concretizado.
O primeiro pedido para essa consagração vem de 1935. A Igreja atravessava então na Espanha um momento muito difícil, que iria degenerar em guerra civil.
Confidenciava Jesus à Alexandrina que o que ali se verificava podia alastrar facilmente ao mundo e que era indispensável a intervenção da sua Mãe para suster a calamidade. E a verdade é que a guerra ganhava em breve dimensão mundial.
“Só Ela lhe poderá valer”, afirma taxativamente o Salvador: só Ela, a sua Mãe, poderia valer ao mundo.
Como disse, a Consagração ocorreu em 31 de Outubro de 1942. A Guerra Mundial estava em marcha e prometia: o Eixo somava vitórias: o centro da Europa estava todo sob o domínio de Hitler, o ataque japonês ao Porto das Pérolas datava de havia um ano.
Por essa altura, travava-se luta muito dura no Norte de África, particularmente a oriente, pelo acesso europeu às fontes do petróleo. Essa luta iria terminar com a vitória aliada em Alamein, no Egipto.
A Consagração terá mudado alguma coisa no vasto teatro desta guerra a que nenhuma anterior se igualava?
Há uma frase de Churchill que diz que até Alamein os aliados não tinham obtido nenhuma vitória, mas que depois não tinham sofrido nenhuma derrota. Ora isto é muito importante, por Alamein coincidir aproximadamente com a Consagração, pois significa que até à Consagração os aliados não tinham tido vitórias e que depois não sofreram derrotas. E esta Consagração destinava-se também a suster a guerra.
Na minha fraca pronúncia inglesa, eis a frase de Churchill, que eu só conheci muito recentemente: “Before Alamein we never had a victory. After Alamein we never had a defeat”.
Mas convém também ouvir o que um notável teólogo italiano afirmou sobre a consagração a que me venho a referir. O nome dele é Gabriel Roschini e “chamou à consagração da humanidade ao Imaculado Coração de Maria, em 1942, a maior honra que alguém pode imaginar”. “Ela é a mais alta manifestação do culto mariano”, afirmou.
Como se sabe, desde muito cedo, antes de 1935, Jesus anunciou à Alexandrina que iria fazer nela “grandes coisas”. Isto num tempo em que o seu nome era muito pouco conhecido. Era conhecido em Balasar e certamente nalgumas freguesias em redor e mesmo aqui um pouco na Póvoa, mas não mais.
É preciso também ter em conta que a tarefa de convencer o Papa a realizar a consagração era enorme: como é que uma camponesa paralítica, a viver num estreito quarto desde há dez anos, havia de mobilizá-lo para um acto destes?
O mundo não é Portugal, ou a Europa ou a Rússia. É a Terra toda. Mas mobilizou-o.
O que tenho estado a dizer são factos e algumas deduções. Mas as deduções estão muito próximas dos factos…
Um dia que a Póvoa reconheça todo o alcance deste feito vai certamente prestar uma grande homenagem a esta sua conterrânea, que nasceu e viveu em Balasar.
Em finais do séc. XIX, tinha o mundo sido consagrado ao Coração de Jesus – e a basílica poveira tem certamente alguma coisa a ver com isso; agora pedia o mesmo Jesus que ele fosse consagrado ao Coração Imaculado da sua Mãe.
Convém lembrar que, na teologia católica, à Mãe de Deus é atribuído o papel mais importante: tendo dado à humanidade o Filho de Deus, Ela encontra-se no centro do plano salvador por Ele concretizado.
O primeiro pedido para essa consagração vem de 1935. A Igreja atravessava então na Espanha um momento muito difícil, que iria degenerar em guerra civil.
Confidenciava Jesus à Alexandrina que o que ali se verificava podia alastrar facilmente ao mundo e que era indispensável a intervenção da sua Mãe para suster a calamidade. E a verdade é que a guerra ganhava em breve dimensão mundial.
“Só Ela lhe poderá valer”, afirma taxativamente o Salvador: só Ela, a sua Mãe, poderia valer ao mundo.
Como disse, a Consagração ocorreu em 31 de Outubro de 1942. A Guerra Mundial estava em marcha e prometia: o Eixo somava vitórias: o centro da Europa estava todo sob o domínio de Hitler, o ataque japonês ao Porto das Pérolas datava de havia um ano.
Por essa altura, travava-se luta muito dura no Norte de África, particularmente a oriente, pelo acesso europeu às fontes do petróleo. Essa luta iria terminar com a vitória aliada em Alamein, no Egipto.
A Consagração terá mudado alguma coisa no vasto teatro desta guerra a que nenhuma anterior se igualava?
Há uma frase de Churchill que diz que até Alamein os aliados não tinham obtido nenhuma vitória, mas que depois não tinham sofrido nenhuma derrota. Ora isto é muito importante, por Alamein coincidir aproximadamente com a Consagração, pois significa que até à Consagração os aliados não tinham tido vitórias e que depois não sofreram derrotas. E esta Consagração destinava-se também a suster a guerra.
Na minha fraca pronúncia inglesa, eis a frase de Churchill, que eu só conheci muito recentemente: “Before Alamein we never had a victory. After Alamein we never had a defeat”.
Mas convém também ouvir o que um notável teólogo italiano afirmou sobre a consagração a que me venho a referir. O nome dele é Gabriel Roschini e “chamou à consagração da humanidade ao Imaculado Coração de Maria, em 1942, a maior honra que alguém pode imaginar”. “Ela é a mais alta manifestação do culto mariano”, afirmou.
Como se sabe, desde muito cedo, antes de 1935, Jesus anunciou à Alexandrina que iria fazer nela “grandes coisas”. Isto num tempo em que o seu nome era muito pouco conhecido. Era conhecido em Balasar e certamente nalgumas freguesias em redor e mesmo aqui um pouco na Póvoa, mas não mais.
É preciso também ter em conta que a tarefa de convencer o Papa a realizar a consagração era enorme: como é que uma camponesa paralítica, a viver num estreito quarto desde há dez anos, havia de mobilizá-lo para um acto destes?
O mundo não é Portugal, ou a Europa ou a Rússia. É a Terra toda. Mas mobilizou-o.
O que tenho estado a dizer são factos e algumas deduções. Mas as deduções estão muito próximas dos factos…
Um dia que a Póvoa reconheça todo o alcance deste feito vai certamente prestar uma grande homenagem a esta sua conterrânea, que nasceu e viveu em Balasar.
terça-feira, 17 de março de 2009
Nun’Álvares Pereira
Nuno Álvares Pereira vai ser canonizado em 26 de Abril próximo – o dia a seguir ao do aniversário da beatificação da Beata Alexandrina – e eu hoje vou falar dele.
Antes de conhecer a data da canonização, eu já tinha pensado fazer-lhe aqui e nesta data uma referência. É que houve uma coincidência interessante: eu queria falar dum romance de Agustina Bessa-Luís. Ora ao menos um espaço desse romance está ligado a uma casa aqui das proximidades a que ela chamou Condestável, porque, escreve, se dizia que ali “acampavam os cavaleiros de D. Nuno Alvares Pereira em tempos de torneios e caçadas” (fim de citação).
Nuno A. Pereira, que nasceu em 1360 e morreu em 1431, é usualmente apresentado como o herói da Batalha de Aljubarrota. De facto, esse é um momento alto da sua vida. Tinha então 25 anos. A diferença numérica entre Castelhanos e Portugueses em campo era demasiado flagrante, talvez seis para um, e eles foram vencidos (diz-se castelhanos e não espanhóis porque na área da actual Espanha havia então vários reinos e a batalha foi contra o de Castela). No campo dos Castelhanos, onde se encontrava quase a totalidade da nobreza portuguesa, a vitória parecia absolutamente garantida e eles achavam uma loucura a resistência dos nossos.
Era muito difícil tomar a iniciativa de combater nessas condições. Houve até alguns fugitivos, que os Castelhanos mataram, o que nunca deviam ter feito, pois inibiram assim outros de tentar a mesma sorte.
Quem conta a batalha de Aljubarrota é Fernão Lopes. Este eminente historiador ignorava alguns pormenores importantes, o que é até de estranhar. Pelos vistos, entre as frentes dos dois exércitos, Nun’Álvares Pereira tinha disfarçado as chamadas covas de lobo – covas cobertas com ramagens – que desorientaram a cavalaria castelhana quando começou a avançar.
O combate ocorreu em 14 de Agosto, véspera da Assunção de Nossa Senhora, e decidiu-se em pouco tempo.
Curiosidade importante: na altura, os Castelhanos estavam do lado do Anti-Papa, pelo que era fácil incitar os combatentes a uma luta de contornos religiosos.
N’Os Lusíadas, Camões também conta a Batalha de Aljubarrota. Mas é uma batalha sonhada, sem grande correspondência com a realidade histórica. Há por lá anotações hilariantes, que o probo Fernão Lopes abertamente recusou.
O Mosteiro da Batalha, dedicado a Nossa Senhora da Vitória, foi construído em agradecimento ao êxito de Aljubarrota. Há poucos meses estive lá. Fiquei escandalizado com o aspecto degradante de algumas paredes e janelas. Quando se vai hoje a Mafra, o exterior do convento está uma maravilha: é um espectáculo grandioso e que a meu ver deita por terra o ridículo memorial de Saramago a propósito daquela magnífica construção. A Batalha não foi limpa. Há até uma parte, certamente menos monumental, sem telhado.
Em Santa Clara de Vila do Conde, encontra-se o túmulo de D. Beatriz, a filha de Nun’Álvares Pereira. Ela faleceu em Chaves e o cadáver foi trazido para aí pelo pai. A arca tumular é de boa qualidade. Recorde-se que esta mulher está na origem da Casa de Bragança, pelo que é uma figura muito importante da nossa história.
Há uma expressão portuguesa que diz: cai ou vai cair “o Carmo e a Trindade”. O Carmo, nesta frase, é o Convento do Carmo, em Lisboa por cima do Chiado e do Rossio, fundado por Nun’Álvares Pereira e onde ele professou, em 1423, depois de se ter desfeito da sua imensa fortuna. Como se sabe, a construção não resistiu ao terramoto de 1755: nessa altura abateram-se mesmo o Convento do Carmo e a Igreja da Trindade
Nun’Álvares Pereira foi sempre um homem de profunda vivência religiosa; enquanto militar, chegava a abandonar o campo da batalha para rezar, como se confiasse mais na Providência do que na força dos seus homens e das suas armas. Em 1415, com 55 anos, ainda esteve na tomada de Ceuta.
Por gratidão a este grande herói nacional e notável homem da Igreja, os portugueses que o puderem fazer não devem faltar à sua canonização. Os seus contemporâneos lisboetas já lhe chamavam em vida “Santo Condestável”.
Antes de conhecer a data da canonização, eu já tinha pensado fazer-lhe aqui e nesta data uma referência. É que houve uma coincidência interessante: eu queria falar dum romance de Agustina Bessa-Luís. Ora ao menos um espaço desse romance está ligado a uma casa aqui das proximidades a que ela chamou Condestável, porque, escreve, se dizia que ali “acampavam os cavaleiros de D. Nuno Alvares Pereira em tempos de torneios e caçadas” (fim de citação).
Nuno A. Pereira, que nasceu em 1360 e morreu em 1431, é usualmente apresentado como o herói da Batalha de Aljubarrota. De facto, esse é um momento alto da sua vida. Tinha então 25 anos. A diferença numérica entre Castelhanos e Portugueses em campo era demasiado flagrante, talvez seis para um, e eles foram vencidos (diz-se castelhanos e não espanhóis porque na área da actual Espanha havia então vários reinos e a batalha foi contra o de Castela). No campo dos Castelhanos, onde se encontrava quase a totalidade da nobreza portuguesa, a vitória parecia absolutamente garantida e eles achavam uma loucura a resistência dos nossos.
Era muito difícil tomar a iniciativa de combater nessas condições. Houve até alguns fugitivos, que os Castelhanos mataram, o que nunca deviam ter feito, pois inibiram assim outros de tentar a mesma sorte.
Quem conta a batalha de Aljubarrota é Fernão Lopes. Este eminente historiador ignorava alguns pormenores importantes, o que é até de estranhar. Pelos vistos, entre as frentes dos dois exércitos, Nun’Álvares Pereira tinha disfarçado as chamadas covas de lobo – covas cobertas com ramagens – que desorientaram a cavalaria castelhana quando começou a avançar.
O combate ocorreu em 14 de Agosto, véspera da Assunção de Nossa Senhora, e decidiu-se em pouco tempo.
Curiosidade importante: na altura, os Castelhanos estavam do lado do Anti-Papa, pelo que era fácil incitar os combatentes a uma luta de contornos religiosos.
N’Os Lusíadas, Camões também conta a Batalha de Aljubarrota. Mas é uma batalha sonhada, sem grande correspondência com a realidade histórica. Há por lá anotações hilariantes, que o probo Fernão Lopes abertamente recusou.
O Mosteiro da Batalha, dedicado a Nossa Senhora da Vitória, foi construído em agradecimento ao êxito de Aljubarrota. Há poucos meses estive lá. Fiquei escandalizado com o aspecto degradante de algumas paredes e janelas. Quando se vai hoje a Mafra, o exterior do convento está uma maravilha: é um espectáculo grandioso e que a meu ver deita por terra o ridículo memorial de Saramago a propósito daquela magnífica construção. A Batalha não foi limpa. Há até uma parte, certamente menos monumental, sem telhado.
Em Santa Clara de Vila do Conde, encontra-se o túmulo de D. Beatriz, a filha de Nun’Álvares Pereira. Ela faleceu em Chaves e o cadáver foi trazido para aí pelo pai. A arca tumular é de boa qualidade. Recorde-se que esta mulher está na origem da Casa de Bragança, pelo que é uma figura muito importante da nossa história.
Há uma expressão portuguesa que diz: cai ou vai cair “o Carmo e a Trindade”. O Carmo, nesta frase, é o Convento do Carmo, em Lisboa por cima do Chiado e do Rossio, fundado por Nun’Álvares Pereira e onde ele professou, em 1423, depois de se ter desfeito da sua imensa fortuna. Como se sabe, a construção não resistiu ao terramoto de 1755: nessa altura abateram-se mesmo o Convento do Carmo e a Igreja da Trindade
Nun’Álvares Pereira foi sempre um homem de profunda vivência religiosa; enquanto militar, chegava a abandonar o campo da batalha para rezar, como se confiasse mais na Providência do que na força dos seus homens e das suas armas. Em 1415, com 55 anos, ainda esteve na tomada de Ceuta.
Por gratidão a este grande herói nacional e notável homem da Igreja, os portugueses que o puderem fazer não devem faltar à sua canonização. Os seus contemporâneos lisboetas já lhe chamavam em vida “Santo Condestável”.
Dois sonetos camonianos de amor de perdição
No seguimento da minha anterior conversa sobre o Amor de Perdição, vou hoje ler dois sonetos de Camões. Contam ambos breves histórias de amores de perdição. Aliás, em Camões o amor acaba quase sempre em fracasso.
O primeiro é um dos do ciclo da Dinamene, que foi uma chinesa por quem ele se apaixonou e que morreu na foz do Mecongue, na costa do actual Vietname, naquele naufrágio em que Camões sobreviveu, conseguindo ainda salvar o seu poema.
Neste soneto conta o poeta que, de noite, sonha com ela. Vê-a num descampado, à distância, e então corre para ela, mas sente que ela se afasta. Põe-se a gritar e então acorda. Conclui por isso que nem um breve e agradável engano pode ter.
Quando de minhas mágoas a comprida
imaginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
que para mim foi sonho nesta vida.
Lá numa soïdade, onde estendida
a vista pelo campo desfalece,
corro par'ela; e ela então parece
que mais de mim se alonga, compelida.
Brado: Não me fujais, sombra benigna!
Ela (os olhos em mim cum brando pejo,
como quem diz que já não pode ser),
torna a fugir-me; e eu, gritando: Dina...
antes que diga mene, acordo e vejo
que nem um breve engano posso ter.
É um belíssimo poema.
O segundo soneto fala dum pescador chamado Aónio. Este estranho nome contém as letras com que então se escrevia João: é um anagrama. Também se passa de noite.
O pescador está só, na praia. É tudo comum em seu redor: o movimento das ondas, o silêncio da noite, o sossego da terra e do céu… mas Aónio está atormentado pelo desaparecimento da sua amada, que pode ser a mesma Dinamene do soneto anterior. Então grita às ondas que lha devolvam. Mas recebe como resposta só o silêncio e o alheamento de tudo.
O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas que se estendem pela areia...
Os peixes que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...
O pescador Aónio, que, deitado,
onde co vento a água se meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado:
- Ondas – dizia – antes que Amor me mate,
tornai-me a minha Ninfa que tão cedo
me fizestes à morte estar sujeita!
Ninguém lhe fala, o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz que ao vento deita.
Este é o soneto da solidão e da incomunicabilidade das coisas.
O último verso é um achado: aqueles quatro vv parece que nos fazem ouvir o vento.
Eu chamei-lhes sonetos de perdição e parece-me que não me enganei.
Eu não tenho nenhuma anedota de Camões para contar. Mas vou leu este curto e célebre poema:
Esparsa.
Ao desconcerto do Mundo
Os bons vi sempre passar
No mundo grandes tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só pera mim,
Anda o mundo concertado.
O primeiro é um dos do ciclo da Dinamene, que foi uma chinesa por quem ele se apaixonou e que morreu na foz do Mecongue, na costa do actual Vietname, naquele naufrágio em que Camões sobreviveu, conseguindo ainda salvar o seu poema.
Neste soneto conta o poeta que, de noite, sonha com ela. Vê-a num descampado, à distância, e então corre para ela, mas sente que ela se afasta. Põe-se a gritar e então acorda. Conclui por isso que nem um breve e agradável engano pode ter.
Quando de minhas mágoas a comprida
imaginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
que para mim foi sonho nesta vida.
Lá numa soïdade, onde estendida
a vista pelo campo desfalece,
corro par'ela; e ela então parece
que mais de mim se alonga, compelida.
Brado: Não me fujais, sombra benigna!
Ela (os olhos em mim cum brando pejo,
como quem diz que já não pode ser),
torna a fugir-me; e eu, gritando: Dina...
antes que diga mene, acordo e vejo
que nem um breve engano posso ter.
É um belíssimo poema.
O segundo soneto fala dum pescador chamado Aónio. Este estranho nome contém as letras com que então se escrevia João: é um anagrama. Também se passa de noite.
O pescador está só, na praia. É tudo comum em seu redor: o movimento das ondas, o silêncio da noite, o sossego da terra e do céu… mas Aónio está atormentado pelo desaparecimento da sua amada, que pode ser a mesma Dinamene do soneto anterior. Então grita às ondas que lha devolvam. Mas recebe como resposta só o silêncio e o alheamento de tudo.
O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas que se estendem pela areia...
Os peixes que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...
O pescador Aónio, que, deitado,
onde co vento a água se meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado:
- Ondas – dizia – antes que Amor me mate,
tornai-me a minha Ninfa que tão cedo
me fizestes à morte estar sujeita!
Ninguém lhe fala, o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz que ao vento deita.
Este é o soneto da solidão e da incomunicabilidade das coisas.
O último verso é um achado: aqueles quatro vv parece que nos fazem ouvir o vento.
Eu chamei-lhes sonetos de perdição e parece-me que não me enganei.
Eu não tenho nenhuma anedota de Camões para contar. Mas vou leu este curto e célebre poema:
Esparsa.
Ao desconcerto do Mundo
Os bons vi sempre passar
No mundo grandes tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só pera mim,
Anda o mundo concertado.
“Amor de Perdição”
Vou falar dum livro de Camilo que foi grande êxito de livraria: “um êxito extra-lusitano”, segundo o seu autor. Foi escrito na prisão em meados do séc. XIX e em breve período de tempo. Estou-me a referir ao Amor de Perdição, publicado em 1862.
É uma história à Romeu e Julieta: conta que houve dois adolescentes, que viviam um de cada lado da mesma rua, em Viseu, e cujos pais se odiavam. Mas entre os jovens nasceu uma paixão avassaladora, de tal força que eles vão arriscar tudo para enfrentar os entraves que a dificultam. E acabam mal, pois a paixão condu-los à morte, uma morte na flor da idade. É uma história romântica, muito ao gosto de Camilo.
Além de Viseu, também aparecem na história Gaia e o Porto. Espaços como Vila Real e outros são muito secundários.
Quando f oi escrita, já não era então uma história contemporânea, pois passava-se ainda sob o antigo regime, no começo do século, cerca de 60 anos antes. Quer o espaço quero o tempo evocados eram arcaizantes, pelo menos não urbanos em sentido moderno. E quando o livro foi publicado, o país estava a mudar muito.
Alguns aspectos justificam o seu êxito: a luta desenvolvida por aquele par ainda tão jovem contra a prepotência dos pais, cujos rancores velhos impedem a felicidade da nova geração; uma certa recuperação moral do protagonista por obra do amor; a determinação e a fidelidade da Teresa ao seu ideal; a nobreza de espírito de Mariana; a gratidão, a determinação e a clareza de ideias de João da Cruz…
Uma vez, há uns quinze anos, eu orientava a leitura deste livro junto dos meus alunos e pus-lhes a questão, como é que o Amor de Perdição se enquadra na situação real que o autor vivia, a de estar na prisão por fugir com a jovem Ana Plácido (que abandonara o marido e se juntara ao escritor)? Creio que a solução é bem fácil e justifica alguma reflexão.
Ao conceder, na sua história, à paixão o direito de se sobrepor a todas as outras regras de conduta, ao torná-la um absoluto, o autor está a legitimar os seus actos de apaixonado.
Entendamo-nos: Simão mata, arrisca-se à forca, parte depois para o degredo e morre; Teresa enfrenta o pai e morre também: mas tudo isso se apresenta legitimado pela paixão amorosa.
É claro que não se pode negar à juventude o direito, no caso inteiramente legítimo, de seguir o seu caminho, mas há regras para todas as situações. O matrimónio, ou simplesmente o casamento, como lugar onde, com as limitações conhecidas e inevitáveis, se realizam fundos anseios dum homem e duma mulher que se amam e complementam e onde se garante da estabilidade da família, tem de ser protegido. Por isso, a romântica proposta camiliana esconde um erro básico, nunca bem declarado, mas que lhe era favorável.
Isto não é moralismo fácil, mas uma exigência nascida do mais elementar bom senso.
Como quer que seja, as histórias de Camilo são, por regra, moralmente muito mais aceitáveis que as daquele que veio a ser seu rival, o poveiro Eça de Queirós.
Camilo foi um autor de sucesso cá no Norte, espaço a que está predominantemente ligada a geografia das suas histórias. O Amor de Perdição não terá sido inteira excepção, embora o seu êxito, comprovado por exemplo pelas versões cinematográficas que já proporcionou, se deva a razões muito próprias e que estão para lá de regionalismos.
Para terminar, vou contar uma anedota de Camilo. É uma anedota que lembra o jeito de resposta pronta e mordaz que se atribui a Bocage:
Um dia o escritor ia num caminho montado num burro. Passa então por ele um fulano abastado a cavalo e pergunta-lhe: “Então, Sr. Camilo, como vai o burro?” Responde-lhe o escritor: “A cavalo, a cavalo”.
É uma história à Romeu e Julieta: conta que houve dois adolescentes, que viviam um de cada lado da mesma rua, em Viseu, e cujos pais se odiavam. Mas entre os jovens nasceu uma paixão avassaladora, de tal força que eles vão arriscar tudo para enfrentar os entraves que a dificultam. E acabam mal, pois a paixão condu-los à morte, uma morte na flor da idade. É uma história romântica, muito ao gosto de Camilo.
Além de Viseu, também aparecem na história Gaia e o Porto. Espaços como Vila Real e outros são muito secundários.
Quando f oi escrita, já não era então uma história contemporânea, pois passava-se ainda sob o antigo regime, no começo do século, cerca de 60 anos antes. Quer o espaço quero o tempo evocados eram arcaizantes, pelo menos não urbanos em sentido moderno. E quando o livro foi publicado, o país estava a mudar muito.
Alguns aspectos justificam o seu êxito: a luta desenvolvida por aquele par ainda tão jovem contra a prepotência dos pais, cujos rancores velhos impedem a felicidade da nova geração; uma certa recuperação moral do protagonista por obra do amor; a determinação e a fidelidade da Teresa ao seu ideal; a nobreza de espírito de Mariana; a gratidão, a determinação e a clareza de ideias de João da Cruz…
Uma vez, há uns quinze anos, eu orientava a leitura deste livro junto dos meus alunos e pus-lhes a questão, como é que o Amor de Perdição se enquadra na situação real que o autor vivia, a de estar na prisão por fugir com a jovem Ana Plácido (que abandonara o marido e se juntara ao escritor)? Creio que a solução é bem fácil e justifica alguma reflexão.
Ao conceder, na sua história, à paixão o direito de se sobrepor a todas as outras regras de conduta, ao torná-la um absoluto, o autor está a legitimar os seus actos de apaixonado.
Entendamo-nos: Simão mata, arrisca-se à forca, parte depois para o degredo e morre; Teresa enfrenta o pai e morre também: mas tudo isso se apresenta legitimado pela paixão amorosa.
É claro que não se pode negar à juventude o direito, no caso inteiramente legítimo, de seguir o seu caminho, mas há regras para todas as situações. O matrimónio, ou simplesmente o casamento, como lugar onde, com as limitações conhecidas e inevitáveis, se realizam fundos anseios dum homem e duma mulher que se amam e complementam e onde se garante da estabilidade da família, tem de ser protegido. Por isso, a romântica proposta camiliana esconde um erro básico, nunca bem declarado, mas que lhe era favorável.
Isto não é moralismo fácil, mas uma exigência nascida do mais elementar bom senso.
Como quer que seja, as histórias de Camilo são, por regra, moralmente muito mais aceitáveis que as daquele que veio a ser seu rival, o poveiro Eça de Queirós.
Camilo foi um autor de sucesso cá no Norte, espaço a que está predominantemente ligada a geografia das suas histórias. O Amor de Perdição não terá sido inteira excepção, embora o seu êxito, comprovado por exemplo pelas versões cinematográficas que já proporcionou, se deva a razões muito próprias e que estão para lá de regionalismos.
Para terminar, vou contar uma anedota de Camilo. É uma anedota que lembra o jeito de resposta pronta e mordaz que se atribui a Bocage:
Um dia o escritor ia num caminho montado num burro. Passa então por ele um fulano abastado a cavalo e pergunta-lhe: “Então, Sr. Camilo, como vai o burro?” Responde-lhe o escritor: “A cavalo, a cavalo”.
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